sábado, 8 de fevereiro de 2020

Manuscrito achado num bolso - Cortázar




Agora que escrevo, para outros isto podia ter sido a roleta ou o hipódromo,
mas não era dinheiro que eu procurava, em dado momento tinha começado
a sentir, a decidir que uma vidraça de janela no metrô podia me trazer a
resposta, o encontro com uma felicidade, precisamente aqui, onde tudo
acontece sob o signo da mais implacável ruptura, dentro de um tempo
subterrâneo que um trajeto entre estações desenha e limita assim
inapelavelmente embaixo. Digo ruptura para compreender melhor (teria de
compreender tantas coisas desde que comecei a jogar o jogo) aquela
esperança de uma convergência que talvez me fosse dada no reflexo em
uma vidraça de janela. Ultrapassar a ruptura que as pessoas não parecem
observar embora sabe-se lá o que pensam essas pessoas agoniadas que
sobem e descem dos vagões do metrô, o que procura além do transporte
essa gente que sobe antes ou depois para descer depois ou antes, que só
coincide numa zona do vagão onde tudo está decidido por antecipação sem
que ninguém possa saber se sairemos juntos, se eu descerei em primeiro
lugar ou esse homem magro com um rolo de papéis, se a velha de verde
continuará até o fim, se esses meninos descerão agora, é claro que descerão,
porque recolhem seus cadernos e suas réguas, aproximam-se rindo e
brincando da porta enquanto lá no canto uma jovem se instala para demorar,
para permanecer ainda por muitas estações no assento enfim livre, e aquela
outra jovem é imprevisível, Ana era imprevisível, mantinha-se muito tesa
contra o encosto no assento da janela, já estava lá quando subi na estação
Etienne Marcel e um negro abandonou o assento em frente e a ninguém
pareceu interessar e eu pude escorregar com uma vaga desculpa por entre os
joelhos dos dois passageiros sentados nos assentos externos e fiquei
defronte de Ana e quase em seguida, porque tinha descido ao metrô para
jogar mais uma vez o jogo, procurei o perfil de Margrit no reflexo da
vidraça da janela e pensei que era bonita, que eu gostava de seu cabelo
preto com uma espécie de asa breve que penteava em diagonal à testa.
Não é verdade que o nome de Margrit ou o de Ana viessem depois ou
que sejam agora uma maneira de diferenciá-las por escrito, coisas assim
eram decididas instantaneamente pelo jogo, quero dizer que de maneira
alguma o reflexo na vidraça da janela podia chamar-se Ana, assim como
também não podia chamar-se Margrit a jovem sentada frente a mim sem me
olhar, com os olhos perdidos no fastio daquele interregno em que todo
mundo parece consultar uma área de visão que não é a circundante, salvo as
crianças que olham fixo e em cheio para as coisas até o dia em que lhes
ensinam a situar-se também nos interstícios, a olhar sem ver com aquela
ignorância cortês de toda presença vizinha, de todo contato sensível, cada
qual instalado em sua bolha, alinhado entre parênteses, cuidando em manter
o mínimo de espaço entre joelhos e cotovelos alheios, refugiando-se no
France-Soir ou em livros de bolso, embora quase sempre como Ana, uns
olhos se situando no oco entre o verdadeiramente observável, naquela
distância neutra e estúpida que ia de minha cara à do homem concentrado
no Figaro. Mas então Margrit, se eu podia prever alguma coisa era que em
dado momento Ana se voltaria distraída para a janela e então Margrit veria
meu reflexo, o cruzamento de olhares nas imagens daquela vidraça onde a
escuridão do túnel põe seu mercúrio atenuado, sua felpa roxa e móvel que
dá às caras uma vida em outros planos, tira-lhes aquela horrível máscara de
giz das luzes municipais do vagão e sobretudo, oh, sim, você não poderia
negar, Margrit, as obriga a olhar de verdade aquela outra cara do vidro
porque durante o tempo instantâneo do olhar duplo não há censura, meu
reflexo na vidraça não era o homem sentado defronte de Ana e que Ana não
devia olhar em cheio num vagão de metrô, e ademais quem estava olhando
meu reflexo já não era Ana e sim Margrit no momento em que Ana desviara
rapidamente o olhar do homem sentado defronte dela porque não ficava
bem que olhasse para ele, e ao voltar-se para o vidro da janela tinha visto
meu reflexo que esperava aquele instante para sorrir ligeiramente sem
insolência nem esperança quando o olhar de Margrit caísse como um
pássaro em seu olhar. Deve ter durado um segundo, talvez um pouco mais
porque senti que Margrit havia percebido aquele sorriso que Ana reprovava
embora não fosse mais que por causa do gesto de baixar o rosto, de
examinar vagamente o fecho de sua bolsa de couro vermelho; e era quase
justo continuar sorrindo se bem que Margrit já não me olhasse porque de
alguma maneira o gesto de Ana acusava meu sorriso, seguia-a sabendo e já
não era necessário que ela ou Margrit olhassem para mim aplicadamente
concentradas na miúda tarefa de experimentar o fecho da bolsa vermelha.
Assim foi com Paula (com Ofélia) e com tantas outras que se tinham
concentrado na tarefa de verificar um fecho, um botão, a dobra de uma
revista, mais uma vez foi o poço onde a esperança se enredava com o temor
numa intensa cãibra de aranhas até a morte, onde o tempo começava a
latejar como um segundo coração no pulso do jogo; desde esse momento
cada estação do metrô era uma trama diferente do futuro porque o jogo
decidira daquela maneira; o olhar de Margrit e meu sorriso, o recuo
instantâneo de Ana à contemplação do fecho da bolsa eram a abertura de
uma cerimônia que um belo dia começara a celebrar contra tudo quanto
fosse razoável, preferindo os piores desencontros às correntes estúpidas de
uma casualidade cotidiana. Explicá-lo não é difícil mas jogá-lo tinha muito
de combate às cegas, trêmula suspensão coloidal na qual todo itinerário
erguia uma árvore de imprevisível percurso. Um plano do metrô de Paris
define em seu esqueleto mondrianesco, em seus galhos vermelhos,
amarelos, azuis e pretos uma vasta porém limitada superfície de
subtendidos pseudópodes; e aquela árvore está viva vinte horas em cada
vinte e quatro, uma seiva atormentada a percorre com finalidades precisas, a
que desce em Châtelet ou sobe em Vaugirard, a que em Odéon muda para
continuar até La Motte-Picquet, as duzentas, trezentas, sabe-se lá quantas
possibilidades de combinação para que cada célula codificada e programada
ingresse num setor da árvore e aflore em outro, saia das Galeries Lafayette
para depositar um embrulho de toalhas ou um abajur num terceiro andar da
rue Gay-Lussac.


Minha regra do jogo era maniacamente simples, era bela, estúpida e
tirânica, se eu gostava de uma mulher, se eu gostava de uma mulher sentada
à minha frente, se eu gostava de uma mulher sentada em frente a mim junto
da janela, se seu reflexo na janela cruzava o olhar com meu reflexo na
janela, se meu sorriso no reflexo da janela perturbava ou agradava ou
rejeitava o reflexo da mulher na janela, se Margrit me via sorrir e então Ana
baixava a cabeça e começava a examinar atentamente o fecho de sua bolsa
vermelha, então havia jogo, dava exatamente na mesma que o sorriso fosse
aceito ou respondido ou ignorado, o primeiro tempo da cerimônia não ia
além disso, um sorriso registrado por quem o havia merecido. Então
começava o combate no poço, as aranhas no estômago, a espera com seu
pêndulo de estação em estação. Lembro-me de como acordei naquele dia:
agora eram Margrit e Ana, mas uma semana atrás tinham sido Paula e
Ofélia, a moça loura descera numa das piores estações, MontparnasseBienvenue,
que abre sua hidra malcheirosa às máximas possibilidades de
fracasso. Minha conexão era com a linha da Porte de Vanves e quase em
seguida, no primeiro corredor, compreendi que Paula (que Ofélia) tomaria o
corredor que levava à conexão com a Mairie d'Issy. Impossível fazer
alguma coisa, só olhar para ela pela última vez no cruzamento dos
corredores, vê-la afastar-se, descer uma escada. A regra do jogo era aquela,
um sorriso na vidraça da janela e o direito de seguir uma mulher e esperar
desesperadamente que sua conexão coincidisse com a decidida por mim
antes de cada viagem; e então — sempre, até agora — vê-la tomar outro
corredor e não poder segui-la, obrigado a voltar ao mundo de cima e entrar
num café e continuar vivendo até que pouco a pouco, horas ou dias ou
semanas, a sede de novo reclamando a possibilidade de que tudo
coincidisse eventualmente, mulher e vidraça da janela, sorriso aceito ou
rejeitado, conexões de trens e então finalmente sim, então o direito de
aproximar-se e dizer a primeira palavra, espessa de tempo estancado, de
interminável pilhagem no fundo do poço entre as aranhas da cãibra.
Agora entrávamos na estação de Saint-Sulpice, alguém do meu lado se
levantava e ia embora, também Ana ficava sozinha diante de mim, deixara
de olhar a bolsa e uma ou duas vezes seus olhos me varreram
distraidamente antes de se perderem no anúncio de termas que se repetia
nos quatro cantos do vagão. Margrit não tinha voltado a olhar para mim na
janela mas aquilo provava o contato, seu latejar sigiloso; Ana era talvez
tímida ou simplesmente lhe parecia absurdo aceitar o reflexo daquela cara
que voltaria a sorrir para Margrit; e além disso chegar a Saint-Sulpice era
importante porque, se ainda faltavam oito estações até o final do percurso
na Porte D'Orléans, só três tinham conexões com outras linhas, e só se Ana
descesse numa daquelas três me restaria a possibilidade de coincidir;
quando o trem começava a frear em Saint-Placide olhei e olhei para Margrit
procurando-lhe os olhos que Ana continuava encostando suavemente nas
coisas do vagão como que admitindo que Margrit não olharia mais para
mim, que era inútil esperar que voltasse a olhar o reflexo que a esperava
para sorrir-lhe.



Não desceu em Saint-Placide, soube-o antes que o trem começasse a
frear, existe esse preparativo do viajante, sobretudo das mulheres que
nervosamente verificam embrulhos, atam o casaco ou olham de lado ao
levantar-se, evitando joelhos naquele instante em que a perda de velocidade
trava e estonteia os corpos. Ana repassava vagamente os anúncios da
estação, a cara de Margrit foi se apagando sob as luzes da plataforma e não
pude saber se tinha voltado a olhar para mim; também meu reflexo não teria
sido visível naquela maré de néon e anúncios fotográficos, de corpos
entrando e saindo. Se Ana descesse em Mont-parnasse-Bienvenue minhas
possibilidades eram mínimas, como não me lembrar de Paula (de Ofélia) lá
onde uma possível conexão quádrupla estreitava qualquer previsão; e
entretanto no dia de Paula (de Ofélia) tivera certeza absoluta de que
coincidiríamos, até o último momento caminhava a três metros daquela
mulher lenta e loura, que parecia vestida de folhas secas, e sua bifurcação à
direita me envolvera a cara como uma chicotada. Por isso agora Margrit
não, por isso o medo, de novo podia ocorrer abominavelmente em
Montparnasse-Bienvenue; a lembrança de Paula (de Ofélia), as aranhas no
poço contra a miúda confiança em que Ana (em que Margrit). Mas ninguém
pode contra aquela ingenuidade que nos vai deixando viver, quase
imediatamente disse comigo mesmo que talvez Ana (que talvez Margrit)
não descesse em Montparnasse-Bienvenue, mas em uma das outras estações
possíveis, que talvez não descesse nas intermediárias, onde não me era dado
segui-la; que Ana (que Margrit) não desceria em Montparnasse-Bienvenue
(não desceu), que não desceria em Vavin, e não desceu, que talvez descesse
em Raspail, que era a primeira das duas últimas possíveis; e quando não
desceu e eu soube que só restava uma estação na qual podia segui-la contra
as três finais em que tudo já dava na mesma, procurei de novo os olhos de
Margrit na vidraça da janela, chamei-a de um silêncio e de uma imobilidade
que deveriam chegar até ela como uma exigência, como um marulho, sorrilhe
com o sorriso que Ana já não podia ignorar, que Margrit tinha de
admitir embora não olhasse para meu reflexo açoitado pelas meias-luzes do
túnel desembocando em Denfert-Rochereau. Talvez o primeiro golpe dos
freios tenha feito tremer a bolsa vermelha nas coxas de Ana, talvez só o
tédio lhe mexesse a mão até a mecha preta que atravessava sua testa;
naqueles três, quatro segundos em que o trem se imobilizava na plataforma,
as aranhas cravaram suas unhas na pele do poço para mais uma vez me
vencer partindo de dentro; quando Ana se ergueu com uma só e límpida
flexão de seu corpo, quando a vi de costas entre os passageiros, acho que
procurei ainda absurdamente o rosto de Margrit na vidraça ofuscado de
luzes e movimento. Saí como que sem o saber, sombra passiva daquele
corpo que descia na plataforma, até despertar para o que viria, para a dupla
escolha final cumprindo-se irrevogável.



Penso que está claro, Ana (Margrit) tomaria um caminho cotidiano ou
circunstancial, enquanto antes de subir naquele trem eu decidira que se
alguém entrasse no jogo e descesse em Denfert-Rochereau, minha conexão
seria a linha Nation-Étoile, da mesma maneira que se Ana (que se Margrit)
tivesse descido em Châtelet só poderia segui-la no caso de tomar a conexão
Vincennes-Neuilly. No último momento da cerimônia o jogo estava perdido
se Ana (se Margrit) tomasse a conexão da Ligne de Sceaux ou saísse
diretamente à rua; imediatamente, mesmo porque naquela estação não havia
os intermináveis corredores de outras vezes e as escadas conduziam
rapidamente ao destino, àquilo que nos meios de transporte também se
chamava destino. Eu a via mexer-se entre as pessoas, sua bolsa vermelha
como um pêndulo de brinquedo, erguendo a cabeça à procura dos letreiros
indicadores, vacilando um instante até orientar-se para a esquerda; mas a
esquerda era a saída que levava à rua.
Não sei como dizer, as aranhas mordiam demais, não fui desonesto no
primeiro minuto, simplesmente a segui para depois talvez admitir, deixá-la
partir para qualquer de seus rumos lá em cima; no meio da escada
compreendi que não, que talvez a única maneira de matá-las fosse negar ao
menos uma vez a lei, o código. A cãibra que me crispara naquele segundo
em que Ana (em que Margrit) começava a subir a escada proibida cedia
lugar de repente a uma fadiga sonolenta, a um golem de lentos degraus;
recusei-me a pensar, bastava saber que continuava a vê-la, que a bolsa
vermelha subia em direção à rua, que a cada passo o cabelo preto lhe tremia
nos ombros. Já era de noite e o ar estava gelado, com alguns flocos de neve
entre rajadas e chuvisco; sei que Ana (que Margrit) não teve medo quando
me coloquei a seu lado e lhe disse: "Não é possível que nos separemos
assim, antes de nos termos encontrado."



No café, mais tarde, agora somente Ana enquanto o reflexo de Margrit
cedia a uma realidade de cinzano e palavras, disse-me que não compreendia
nada, que se chamava Marie-Claude, que meu sorriso no reflexo lhe fizera
muito mal, que em dado momento pensara em se levantar e mudar de lugar,
que não tinha me visto segui-la e que na rua não sentira medo,
contraditoriamente, olhando nos meus olhos, bebendo seu cinzano, sorrindo
sem se envergonhar de sorrir, de ter aceitado quase em seguida minha
abordagem em plena rua. Naquele momento de uma felicidade como que
esparramada, de abandono a um deslizar cheio de álamos, não podia dizerlhe
o que ela teria imaginado como loucura ou mania e que era assim mas
de outra maneira, de outras margens da vida; falei-lhe de sua mecha de
cabelo, de sua bolsa vermelha, de seu modo de olhar para o anúncio das
termas, de que não lhe tinha sorrido por donjuanismo nem tédio mas para
dar-lhe uma flor que não possuía, o sinal de que gostava dela, de que me
fazia bem, de que viajar defronte dela, de que outro cigarro e outro cinzano.
Em nenhum momento fomos enfáticos, falamos como de algo já conhecido
e aceito, olhando-nos sem nos machucar, acho que Maria-Claude me
deixava vir e estar em seu presente como talvez Margrit teria respondido a
meu sorriso na vidraça se não houvesse de permeio tantas ideias
preconcebidas, tanto não deve responder se falarem com você na rua ou lhe
oferecerem balas e quiserem levá-la ao cinema, até que Maria-Claude, já
libertada de meu sorriso a Margrit, Marie-Claude na rua e o café pensara
que era um bom sorriso, que o desconhecido lá de baixo não tinha sorrido
para Margrit para tatear outro terreno, e minha maneira absurda de abordála
tinha sido a única compreensível, a única razão para dizer que sim, que
podíamos beber um drinque e conversar num café.



Não me lembro o que pude contar-lhe de mim, talvez tudo a não ser o
jogo mas então só isso, em dado momento rimos, alguém fez a primeira
piada, descobrimos que gostávamos dos mesmos cigarros e de Catherine
Deneuve, deixou-me acompanhá-la até a entrada de sua casa, estendeu-me a
mão com firmeza e consentiu no mesmo café à mesma hora de terça-feira.
Peguei um táxi para voltar a meu bairro, pela primeira vez em mim mesmo
como num incrível país estrangeiro, repetindo-me que sim, que Marie-
Claude, que Denfert-Rochereau, apertando as pálpebras para guardar
melhor seu cabelo preto; aquela maneira de mexer a cabeça de lado antes de
falar, de sorrir. Fomos pontuais e nos contamos filmes, trabalho,
verificamos diferenças ideológicas parciais, ela continuava me aceitando
como se maravilhosamente lhe bastasse aquele presente sem razões, sem
interrogação; nem parecia perceber que qualquer imbecil a teria tomado por
fácil ou tola; acatando inclusive que eu não tratasse de compartilhar o
mesmo banco no café, que no percurso da rue Froidevaux não lhe passasse
o braço pelo ombro no primeiro sinal de uma intimidade, que a sabendo
quase só — uma irmã mais moça, muitas vezes ausente do apartamento do
quarto andar — não lhe pedisse para subir. Se de alguma coisa não podia
desconfiar era das aranhas, tínhamo-nos encontrado três ou quatro vezes
sem que mordessem, imóveis no poço e esperando até o dia em que eu
soube como se não tivesse sabido o tempo todo, mas às terças-feiras, chegar
ao café, imaginar que Marie-Claude já estaria lá ou vê-la entrar com seus
passos ágeis, sua morena recorrência que lutara inocentemente contra as
aranhas outra vez acordadas, contra a transgressão do jogo que só ela tinha
podido defender apenas me dando uma breve, morna mão, somente aquela
mecha de cabelo que passeava por sua testa. Em dado momento deve ter
percebido, ficou calada olhando para mim, esperando; já era impossível que
não me delatasse o esforço para fazer durar a trégua, para não admitir que
voltavam pouco a pouco apesar de Marie-Claude, contra Marie-Claude que
não podia compreender, que ficava calada olhando para mim, esperando;
beber e fumar e falar-lhe, defendendo até o fim o doce interregno sem
aranhas, saber de sua vida simples e com horário e irmã estudante e
alergias, desejar tanto aquela mecha preta que lhe penteava a testa, desejá-la
como um término, como realmente a última estação do último metrô da
vida, e então o poço, a distância de minha cadeira àquele banquinho em que
nos teríamos beijado, em que minha boca teria bebido o primeiro perfume
de Maria-Claude antes de levá-la abraçada até sua casa, subir aquela escada,
despir-nos finalmente de tanta roupa e tanta espera.


Então eu lhe disse, lembro-me do muro do cemitério e de que Marie-
Claude encostou-se nele e me deixou falar com o rosto perdido no musgo
quente de seu casaco, quem sabe se minha voz lhe chegou com todas as
suas palavras, se foi possível que compreendesse: disse-lhe tudo, cada
detalhe do jogo, as improbabilidades confirmadas desde tantas Paulas
(desde tantas Ofélias) perdidas no fim de um corredor, as aranhas em cada
final. Chorava, sentia-a tremer contra mim embora continuasse me
agasalhando, sustentando-me com todo seu corpo encostado no muro dos
mortos; não me perguntou nada, não quis saber por que nem desde quando,
não lhe ocorreu lutar contra uma máquina montada por toda uma vida a
contrapelo de si mesma, da cidade e suas palavras de ordem, somente
aquele choro ali como um animalzinho machucado, resistindo sem força ao
triunfo do jogo, à dança exasperada das aranhas no poço.
Na porta de sua casa disse-lhe que nem tudo estava perdido, que dos
dois dependia tentar um encontro legítimo; agora ela conhecia as regras do
jogo, talvez nos fossem favoráveis dado que não faríamos outra coisa senão
nos procurar. Disse-me que podia pedir quinze dias de férias, viajar levando
um livro para que o tempo fosse menos úmido e hostil no mundo
subterrâneo, passar de uma conexão a outra, esperar-me lendo, olhando os
anúncios. Não quisemos pensar na improbabilidade, em que talvez nos
encontraríamos num trem mas que não bastava, que desta vez não se
poderia faltar ao preestabelecido; pedi-lhe que não pensasse, que deixasse
correr o metrô, que não chorasse nunca naquelas duas semanas enquanto eu
a procurava; sem palavras ficou entendido que se o prazo se esgotasse sem
nos tornarmos a ver ou só nos vendo até que dois corredores diferentes nos
separassem, já não faria sentido voltar ao café, à porta de sua casa. Ao pé
daquela escada de bairro que uma luz alaranjada estendia docemente para
cima, para a imagem de Marie-Claude em seu apartamento, entre seus
móveis, nua e dormindo, beijei-a no cabelo, acariciei-lhe as mãos; ela não
procurou minha boca, foi se afastando e a vi de costas, subindo outras das
tantas escadas que as levavam sem que pudesse segui-las; voltei a pé para
casa, sem aranhas, vazio e lavado para a nova espera; agora não podiam me
fazer nada, o jogo ia recomeçar como tantas outras vezes mas só com
Marie-Claude, segunda-feira descendo a estação Couronnes de manhã,
saindo em Max Dormoy em plena noite, terça-feira entrando em Crimée,
quarta-feira em Philippe Auguste, a precisa regra do jogo, quinze estações
nas quais quatro tinham conexões, e então na primeira das quatro sabendo
que teria de continuar até a linha Sèvres-Montreuil como na segunda teria
de tomar a conexão Clichy-Porte Dauphine, cada itinerário escolhido sem
uma razão especial porque não podia existir nenhuma razão, Marie-Claude
teria subido talvez perto de sua casa, em Denfert-Rochereau ou em
Corvisart, estaria trocando em Pasteur para continuar até Falguière, a árvore
mondrianesca com todos os seus galhos secos, acaso das tentações
vermelhas, azuis, brancas, pontilhadas; quinta, sexta, sábado. De qualquer
plataforma ver entrar os trens, os sete ou oito vagões, permitindo-me olhar
enquanto passavam cada vez mais lentos, chegar até o fim e subir num
vagão sem Marie-Claude, descer na estação seguinte e esperar outro trem,
seguir até a primeira estação para procurar outra linha, ver chegar os vagões
sem Marie-Claude, deixar passar um trem ou dois, subir no terceiro,
continuar até o terminal, retornar a uma estação de onde podia passar para
outra linha, decidir que só tomaria o quarto trem, abandonar a procura e
subir para comer, retornar quase em seguida com um cigarro amargo e
sentar-me num banco até o segundo, até o quinto trem. Segunda, terça,
quarta, quinta, sem aranhas porque ainda esperava, porque ainda espero
neste banco da estação Chemin Vert, com este caderninho em que uma mão
escreve para inventar um tempo que não seja só aquela interminável rajada
que me projeta em direção ao sábado no qual talvez tudo terá acabado, em
que voltarei sozinho e as sentirei acordar e morder, suas pinças enraivecidas
exigindo-me o novo jogo, outras Marie-Claudes, outras Paulas, a reiteração
depois de cada fracasso, o recomeçar canceroso. Mas é quinta-feira, é a
estação Chemin Vert, lá fora cai a noite, ainda se pode imaginar qualquer
coisa, inclusive pode não parecer incrível demais que no segundo trem, que
no quarto vagão, que Marie-Claude num assento contra a janela, tenha me
visto e se levante com um grito que ninguém salvo eu pode escutar assim
em plena cara, em plena corrida para saltar do vagão lotado, empurrando
passageiros indignados, murmurando desculpas que ninguém espera nem
aceita, ficando de pé contra o assento duplo ocupado por pernas e guardachuvas
e embrulhos, por Marie-Claude com seu agasalho cinza contra a
janela, a mecha preta que o arranco repentino do trem apenas agita como
suas mãos tremem em cima das coxas num chamado que não tem nome,
que é só isso que agora vai acontecer. Não há necessidade de falar, não se
poderia dizer nada por cima desse muro impassível e desconfiado de caras e
guarda-chuvas entre mim e Marie-Claude; restam três estações que fazem
conexão com outras linhas, Marie-Claude deverá escolher uma delas,
percorrer a plataforma, seguir por um dos corredores ou procurar a escada
de saída, alheia à minha escolha que desta vez não transgredirei. O trem
entra na estação Bastille e Marie-Claude continua ali, as pessoas descem e
sobem, alguém deixa desocupado o assento a seu lado mas não me
aproximo, não posso me sentar ali, não posso tremer junto dela como ela
estará tremendo. Agora vêm Ledru-Rollin e Froidherbe-Chaligny, naquelas
estações sem conexão Marie-Claude sabe que não posso segui-la e não se
mexe, o jogo tem de ser jogado em Reuilly-Diderot ou em Daumesnil;
enquanto o trem entra em Reuilly-Diderot afasto os olhos, não quero que
saiba, não quero que possa compreender que não é ali. Quando o trem
arranca vejo que não se mexeu, que nos resta uma última esperança, em
Daumesnil há apenas uma conexão e a saída para a rua, vermelho ou preto,
sim ou não. Então olhamos um para o outro, Marie-Claude ergueu o rosto
para encarar-me em cheio, agarrado à barra do assento sou aquilo que ela
olha, alguma coisa tão pálida como o que estou olhando, o rosto sem sangue
de Marie-Claude que aperta a bolsa vermelha, que vai fazer o primeiro
gesto para levantar-se enquanto o trem entra na estação Daumesnil.
Carta a uma senhorita em Paris (Julio Cortázar)


Andrée. Eu não queria viver em seu apartamento da Calle Suipacha. Não
tanto pelos coelhinhos, mas porque me desagrada entrar em uma ordem
fechada, construída até nas mais finas malhas do ar, essas que em sua casa
preservam a música da lavanda, o adejar de um cisne, o jogo de violino e
viola no quarteto de Rará. Para mim é duro entrar em um ambiente onde
alguém que vive confortavelmente dispôs tudo como uma reiteração de sua
alma, aqui os livros (de um lado em espanhol, do outro em francês e inglês),
ali os almofadões verdes, neste exato lugar da mesinha, o cinzeiro de cristal
que se parece com uma bolha de sabão, e sempre um perfume, um som, um
crescer de plantas, uma fotografia do amigo morto, um ritual de bandejas
com chá e pinças de açúcar... Ah, querida Andrée, que difícil opor-se,
embora aceitando-a com inteira submissão do próprio ser, à minuciosa
ordem que uma mulher instaura em sua agradável residência. Como é
condenável pegar uma tacinha de metal e pô-la no outro extremo da mesa,
pô-la ali simplesmente porque alguém trouxe seus dicionários de inglês e é
deste lado, ao alcance da mão, que deverão estar. Mexer nessa tacinha
equivale a pôr um horrível e inesperado vermelho em meio a uma
modulação de Ozenfant, como se de repente as cordas de todos os
contrabaixos rebentassem ao mesmo tempo, com o mesmo espantoso
chicotaço, no instante mais suave de uma sinfonia de Mozart. Mexer nessa
tacinha altera o jogo de relações de toda a casa, de um objeto com outro, de
cada momento de sua alma com a alma inteira da casa e sua distante
moradora. E eu não posso aproximar os dedos de um livro, ajustar de leve o
cone de luz de um lampião, abrir a tampa da caixa de música, sem que um
sentimento de ultraje e desafio me passe pelos olhos como um bando de
pardais.


Você sabe por que vim a sua casa, a sua tranquila sala festejada de sol.
Tudo parece tão natural, como sempre, que não se sabe a verdade. Você foi
a Paris, eu fiquei com o apartamento da Calle Suipacha, elaboramos um
simples e satisfatório plano de mútua conveniência, até que setembro tragaa
de novo a Buenos Aires e me atire a alguma casa onde talvez... Mas não
lhe escrevo por isso, envio esta carta por causa dos coelhinhos, parece-me
justo informá-la; e porque gosto de escrever cartas, e talvez porque chove.
Mudei-me na quinta-feira passada, às cinco da tarde, entre névoa e
tédio. Fechei tantas malas em minha vida, passei tantas horas preparando
bagagens que não levavam a parte nenhuma, que a quinta-feira foi um dia
cheio de sombras e correias, porque quando vejo as correias das maletas é
como se visse sombras, partes de um látego que me açoita indiretamente, da
maneira mais sutil e mais horrível. Mas fiz as malas, avisei sua criada que
viria instalar-me, e subi de elevador. Precisamente entre o primeiro e o
segundo andar, senti que ia vomitar um coelhinho. Nunca lhe contara antes,
não acredite que por deslealdade, mas naturalmente a gente não vai ficar
explicando a todos que, de quando em quando, vomita um coelhinho. Como
isso sempre me tem sucedido estando só, escondia o fato como se escondem
tantos detalhes do que acontece (ou a gente faz acontecer) na intimidade
total. Não me censure.



Andrée, não me censure. De quando em quando me acontece vomitar
um coelhinho. Não é razão para não viver em qualquer casa, não é razão
para que a gente tenha de se envergonhar e estar isolado e andar se calando.
Quando sinto que vou vomitar um coelhinho, ponho dois dedos na boca
como uma pinça aberta, e espero sentir na garganta a penugem morna que
sobe como uma efervescência de sal de frutas. Tudo é rápido e higiênico,
transcorre em um brevíssimo instante. Tiro os dedos da boca, e neles trago
preso pelas orelhas um coelhinho branco. O coelhinho parece contente, é
um coelhinho normal e perfeito, só que muito pequeno, pequeno como um
coelhinho de chocolate, mas branco e inteiramente um coelhinho. Ponho-o
na palma da mão, levanto sua penugem com uma carícia dos dedos, o
coelhinho parece satisfeito de haver nascido e bole e esfrega o focinho na
minha pele, mexendo-o com essa trituração silenciosa e cosquenta do
focinho de um coelhinho contra a pele de uma mão. Procura comer, e então
eu (falo de quando isto ocorria em minha casa de campo) o levo comigo à
varanda e o ponho no grande vaso onde cresce o trevo que plantei com esse
fim. O coelhinho levanta suas orelhas, envolve o trevo novo com um veloz
molinete do focinho, e eu sei que posso deixá-lo e ir embora, continuar por
algum tempo uma vida não diferente da de tantos que compram seus
coelhos nas granjas.
Entre o primeiro e o segundo andar. Andrée, como um aviso do que
seria minha vida em sua casa, soube que ia vomitar um coelhinho. Em
seguida tive medo (ou era surpresa? Não, medo da mesma surpresa, talvez),
porque antes de deixar minha casa, só dois dias antes, tinha vomitado um
coelhinho e estava livre por um mês, por cinco semanas, talvez seis com um
pouco de sorte. Veja você, eu tinha resolvido inteiramente o problema dos
coelhinhos. Plantava trevo na varanda de minha outra casa, vomitava um
coelhinho, punha-o no trevo e, ao fim de um mês, quando suspeitava que de
um momento para outro... então dava o coelho já crescido à sra. de Molina,
que pensava ser um hobby meu e se calava. Já em outro vaso vinha
crescendo um trevo novo e apropriado, eu esperava sem preocupação a
manhã em que a cosquinha de uma penugem subindo fechava-me a
garganta, e o novo coelhinho repetia desde aquela hora a vida e os costumes
do anterior. Os costumes. Andrée, são formas concretas do ritmo, são a cota
do ritmo que nos ajuda a viver. Não era tão terrível vomitar coelhinhos uma
vez que isso havia entrado no ciclo invariável, no método. Você quererá
saber por que todo esse trabalho, por que todo esse trevo e a sra. de Molina.
Teria sido preferível matar em seguida o coelhinho e... Ah, você teria de
vomitar tão somente um, pegá-lo com dois dedos e colocá-lo na mão aberta,
ainda aderido a você pelo ato mesmo, pela aura inefável de sua proximidade
apenas rompida, Um mês distancia tanto; um mês é tanto, pelos compridos,
saltos, olhos selvagens, diferença absoluta. Andrée, um mês é um coelho,
faz de verdade um coelho; mas o minuto inicial, quando a mecha morna e
bulidora encobre uma presença imutável... Como um poema nos primeiros
minutos, o fruto de uma noite de Iduméia: tão da gente que a gente
mesmo... depois tão não a gente, tão isolado e distante em seu raso mundo
branco tamanho mapa.


Decidi, contudo, matar o coelhinho mal nascesse. Eu viveria quatro
meses em sua casa: quatro — talvez, com sorte, três — colheradas de álcool
no focinho, (Você sabe que a misericórdia permite matar instantaneamente
um coelhinho dando-lhe de beber uma colherada de álcool? Sua carne então
sabe melhor, dizem, embora eu... Três ou quatro colheradas de álcool, logo
o banheiro ou um pacote somando-se ao lixo,).
Ao passar o terceiro andar o coelhinho se mexia em minha mão aberta.
Sara esperava em cima, para ajudar-me a entrar com as malas... Como
explicar-lhe que um capricho, uma lojinha de animais? Envolvi o coelhinho
em meu lenço, coloquei-o no bolsinho do sobretudo, deixando o sobretudo
solto para não espremê-lo. Mal se mexia. Sua miúda consciência devia estar
revelando fatos importantes: que a vida é um movimento para cima com um
click final, e que é também um céu baixo, branco, envolvente e cheirando a
lavanda, no fundo de um poço morno.

Sara não viu nada, fascinava-a muito o duro problema de ajustar seu
sentido de ordem a minha mala-roupeiro, meus papéis e minha displicência
diante de suas demoradas explicações, onde abunda a expressão "por
exemplo". Tão logo pude, me fechei no banheiro; matá-lo agora, Uma fina
zona de calor rodeava o lenço, o coelhinho era branquíssimo e acho que
mais lindo do que os outros. Não me olhava, somente bulia e estava
contente, o que era o mais horrível modo de me olhar. Encerrei-o no
pequeno armário vazio e me voltei para desfazer as malas, desorientado
mas não infeliz, não culpado, não ensaboando as mãos para tirar delas uma
última convulsão.


Compreendi que não podia matá-lo. Mas nessa mesma noite vomitei
um coelhinho negro. E dois dias depois um branco. E na quarta noite um
coelhinho cinza.
Você deve gostar do belo armário do seu quarto, com a grande porta que se
abre generosa, as prateleiras vazias à espera da minha roupa. Agora guardo
os ali. Ali dentro. Verdade que parece impossível; nem Sara acreditaria.
Porque Sara não desconfia de nada, e não desconfia de nada por causa da
minha horrível tarefa, uma tarefa que consome meus dias e minhas noites
num só golpe de gatilho e vai me queimando por dentro e endurecendo
como aquela estrela-do-mar que você pôs sobre a banheira e que a cada
banho parece encher o corpo da gente de sal e açoites de sol e grandes
rumores de profundidade.
De dia dormem. São dez. De dia dormem. Com a porta fechada, o
armário é uma noite diurna somente para eles, lá dormem sua noite com
sossegada obediência. Levo comigo as chaves do quarto ao sair para o
trabalho. Sara deve pensar que ponho em dúvida sua honradez e olha-me
desconfiada, noto todas as manhãs que está para me dizer algo, mas por fim
se cala, e eu fico tão contente... (Quando arruma o quarto, das nove às dez,
faço ruído na sala, ponho um disco de Benny Carter que toma todo o
ambiente, e como Sara é também amiga de saetas e pasodobles, o armário
parece silencioso e talvez esteja, porque para os coelhinhos agora é noite e
hora de descanso.)

Seu dia principia nessa hora que vem depois da janta, quando Sara leva
a bandeja com um miúdo tilintar de pinças de açúcar, deseja-me boa-noite
— sim, deseja. Andrée, o mais triste é que me deseja boa-noite — e fechase
em seu quarto e imediatamente estou só, só com o armário condenado, só
com meu dever e minha tristeza.

Deixo-os sair, lançarem-se ágeis pela sala, cheirando vivamente o trevo
que meus bolsos ocultavam e agora fazem no tapete efêmeras rendas que
eles alteram, removem, consomem num instante. Comem bem, calados e
corretos, até aquele instante nada tenho a dizer, somente os olho do sofá,
com um livro inútil na mão — eu que queria ler todos os seus Giraudoux.
Andrée, e a história argentina de Lopez que você tem na prateleira mais
baixa —; e comem o trevo.

São dez. Quase todos brancos. Levantam a morna cabeça para as
lâmpadas da sala, os três sóis imóveis do seu dia, eles que amam a luz
porque sua noite não tem lua nem estrelas nem lampiões. Olham seu triplo
sol e estão contentes. Por isso, pulam pelo tapete, pelas cadeiras, dez suaves
manchas movimentam-se como uma constelação móvel, de um lado para
outro, embora eu quisesse vê-los quietos, vê-los a meus pés e quietos — um
pouco o sonho de todo deus. Andrée, o sonho jamais cumprido dos deuses
—, não assim, insinuando-se atrás do retrato de Miguel de Unamuno, em
torno do grande jarro verde-claro, pela negra cavidade da escrivaninha,
sempre menos de dez, sempre seis ou oito, e eu me perguntando onde
andarão os dois que faltam, e se Sara se levantasse por qualquer coisa, e a
presidência de Rivadavia que eu queria ler na história de Lopez.
Não sei como resisto. Andrée. Você recorda que vim descansar em sua
casa. Não é culpa minha se de quando em quando vomito um coelhinho, se
esta mudança me alterou também por dentro — não é nominalismo, não é
magia, apenas que as coisas não podem mudar assim de pronto, às vezes as
coisas mudam brutalmente e quando você esperava a bofetada direita...
Assim. Andrée, ou de outro modo, mas sempre assim.
Escrevo-lhe de noite. São três da tarde, mas escrevo-lhe na noite deles.
De dia dormem. Que alívio este escritório coberto de gritos, ordens,
máquinas Royal, vice-presidentes e mimeógrafos! Que alívio, que paz, que
horror. Andrée! Agora me chamam ao telefone, são os amigos que se
inquietam com minhas noites recolhidas, é Luis que me convida a caminhar
ou Jorge que reservou entrada para um concerto. Quase não me atrevo a
dizer-lhes que não, invento prolongadas e ineficazes histórias de má saúde,
de traduções atrasadas, de evasão. E quando volto e subo de elevador —
aquela passagem, entre o primeiro e o segundo andar — renovo noite a
noite irremediavelmente a vã esperança de que não seja verdade.
Faço o que posso para que não destrocem suas coisas. Roeram um
pouco os livros da prateleira mais baixa, você os encontrará escondidos
para que Sara não note. Você gostava muito de seu lampião com o ventre de
porcelana cheio de mariposas e cavaleiros antigos? O trincado mal se
percebe, trabalhei toda a noite com uma cola especial que me venderam em
uma casa inglesa — você sabe que as casas inglesas têm as melhores colas
— e agora fico ao lado dele para que nenhum o alcance outra vez com as
patas (é quase belo ver como gostam de se pôr em pé, lembrança do
humano distante, talvez imitação de seu deus deambulando e os olhando
carrancudo; além disso você terá percebido — em sua infância, talvez —
que se pode deixar um coelhinho em penitência contra a parede, de pé, as
patinhas apoiadas e muito quieto horas e horas).

Às cinco da manhã (dormi um pouco, estirado no sofá verde e
despertando a cada corrida aveludada, a cada tilintar) coloco-os no armário
e faço a limpeza. Por isso Sara encontra tudo em ordem, embora às vezes eu
tenha notado nela algum assombro contido, um ficar olhando um objeto,
uma leve descoloração do tapete, e de novo o desejo de perguntar-me algo,
mas eu assobiando as variações sinfônicas de Franck, de maneira que nada.
Para que contar-lhe. Andrée, as minúcias desventuradas desse amanhecer
surdo e vegetal, em que caminho entredormido levantando cabos de trevo,
folhas soltas, pelos brancos, aos encontrões nos móveis, louco de sono, e
meu Gide que se atrasa. Troyat que não traduzi, e minhas respostas a uma
senhora distante que já estará se perguntando se... para que continuar tudo
isto, para que continuar esta carta que escrevo entre telefones e entrevistas.
Andrée, querida Andrée, meu consolo é que são dez e não virão mais.
Faz 15 dias segurei na palma da mão um último coelhinho, depois nada,
somente os dez comigo, sua diurna noite e crescendo, agora feios e
nascendo-lhes o pelo comprido, agora adolescentes e cheios de
necessidades e caprichos, saltando sobre o busto de Antínoo (é Antínoo,
verdade, aquele rapaz que olha cegamente?) ou se perdendo no living onde
seus movimentos criam ruídos ressonantes, tanto que dali devo tirá-los, com
medo de que Sara os ouça e apareça horripilada, talvez em camisola —
porque Sara deve ser assim, de camisola —, e então... Somente dez, pense
você nessa pequena alegria que tenho, afinal de contas, na crescente calma
com que dou volta aos duros céus do primeiro e do segundo andar.
Interrompi esta carta porque devia participar de um trabalho de comissões.
Continuo-a aqui em sua casa. Andrée, sob um mudo e grisalho amanhecer.
É de fato o dia seguinte. Andrée? Um pedaço em branco da página será para
você o intervalo, apenas a ponte que une meu escrito de ontem ao meu
escrito de hoje. Dizer-lhe que nesse intervalo tudo terminou, onde você vê a
ponte aberta ouço eu quebrar-se a cintura furiosa da água, para mim este
lado do papel, este lado da minha carta não continua a calma com que eu
vinha escrevendo, quando a deixei para participar de um trabalho de
comissões. Em sua cúbica noite sem tristeza dormem 11 coelhinhos; talvez
agora mesmo, mas não, não agora — no elevador, logo, ou ao entrar; já não
importa onde, se o quando é agora, se pode ser em qualquer agora dos que
me restam.

Agora chega, escrevi isto porque me interessa provar-lhe que não fui tão
culpado na destruição irrecuperável de sua casa. Deixarei esta carta
esperando-a, seria sórdido que o correio a entregasse em alguma clara
manhã de Paris, À noite passada repus os livros da segunda estante; já os
alcançavam, pondo-se de pé ou saltando, roeram as lombadas para afiar os
dentes — não por fome, têm todo o trevo que lhes compro e armazeno nas
gavetas da escrivaninha. Rasgaram as cortinas, os forros das cadeiras, a
moldura do autorretrato de Augusto Torres, encheram de pelos o tapete e
também gritaram, estiveram dando voltas sob o lampião, em círculo e como
me adorando, e logo gritavam, gritavam como eu não acredito que gritem
os coelhos.

Quis em vão tirar os pelos que estragam o tapete, arranjar a moldura da
tela roída, fechá-los de novo no armário. O dia chega, talvez Sara se levante
agora. É quase estranho que Sara não me importe. E quase estranho que não
me importe vê-los correr em busca de brinquedos. Não tive tanta culpa,
você verá quando chegar que muitos dos destroços estão bem reparados
com a cola que comprei em uma casa inglesa, eu fiz o que pude para evitarlhe
um desgosto... Quanto a mim, do dez ao 11 há como um vazio
insuperável. Você vê: dez estava bem, com um armário, trevo e esperança,
quantas coisas se podem construir. Mas não com 11, porque dizer 11 é
certamente dizer 12. Andrée, 12 que será 13. Então está o amanhecer e uma
fria solidão na qual cabem a alegria, as recordações, você e talvez tantos
outros. Está esta sacada sobre Suipacha cheia de aurora, os primeiros sons
da cidade. Não acho que seja difícil juntar 11 coelhinhos salpicados sobre
os paralelepípedos, talvez nem os notem, atarefados com o outro corpo que
convém levar logo, antes que passem os primeiros colegiais.