sábado, 8 de fevereiro de 2020

Carta a uma senhorita em Paris (Julio Cortázar)


Andrée. Eu não queria viver em seu apartamento da Calle Suipacha. Não
tanto pelos coelhinhos, mas porque me desagrada entrar em uma ordem
fechada, construída até nas mais finas malhas do ar, essas que em sua casa
preservam a música da lavanda, o adejar de um cisne, o jogo de violino e
viola no quarteto de Rará. Para mim é duro entrar em um ambiente onde
alguém que vive confortavelmente dispôs tudo como uma reiteração de sua
alma, aqui os livros (de um lado em espanhol, do outro em francês e inglês),
ali os almofadões verdes, neste exato lugar da mesinha, o cinzeiro de cristal
que se parece com uma bolha de sabão, e sempre um perfume, um som, um
crescer de plantas, uma fotografia do amigo morto, um ritual de bandejas
com chá e pinças de açúcar... Ah, querida Andrée, que difícil opor-se,
embora aceitando-a com inteira submissão do próprio ser, à minuciosa
ordem que uma mulher instaura em sua agradável residência. Como é
condenável pegar uma tacinha de metal e pô-la no outro extremo da mesa,
pô-la ali simplesmente porque alguém trouxe seus dicionários de inglês e é
deste lado, ao alcance da mão, que deverão estar. Mexer nessa tacinha
equivale a pôr um horrível e inesperado vermelho em meio a uma
modulação de Ozenfant, como se de repente as cordas de todos os
contrabaixos rebentassem ao mesmo tempo, com o mesmo espantoso
chicotaço, no instante mais suave de uma sinfonia de Mozart. Mexer nessa
tacinha altera o jogo de relações de toda a casa, de um objeto com outro, de
cada momento de sua alma com a alma inteira da casa e sua distante
moradora. E eu não posso aproximar os dedos de um livro, ajustar de leve o
cone de luz de um lampião, abrir a tampa da caixa de música, sem que um
sentimento de ultraje e desafio me passe pelos olhos como um bando de
pardais.


Você sabe por que vim a sua casa, a sua tranquila sala festejada de sol.
Tudo parece tão natural, como sempre, que não se sabe a verdade. Você foi
a Paris, eu fiquei com o apartamento da Calle Suipacha, elaboramos um
simples e satisfatório plano de mútua conveniência, até que setembro tragaa
de novo a Buenos Aires e me atire a alguma casa onde talvez... Mas não
lhe escrevo por isso, envio esta carta por causa dos coelhinhos, parece-me
justo informá-la; e porque gosto de escrever cartas, e talvez porque chove.
Mudei-me na quinta-feira passada, às cinco da tarde, entre névoa e
tédio. Fechei tantas malas em minha vida, passei tantas horas preparando
bagagens que não levavam a parte nenhuma, que a quinta-feira foi um dia
cheio de sombras e correias, porque quando vejo as correias das maletas é
como se visse sombras, partes de um látego que me açoita indiretamente, da
maneira mais sutil e mais horrível. Mas fiz as malas, avisei sua criada que
viria instalar-me, e subi de elevador. Precisamente entre o primeiro e o
segundo andar, senti que ia vomitar um coelhinho. Nunca lhe contara antes,
não acredite que por deslealdade, mas naturalmente a gente não vai ficar
explicando a todos que, de quando em quando, vomita um coelhinho. Como
isso sempre me tem sucedido estando só, escondia o fato como se escondem
tantos detalhes do que acontece (ou a gente faz acontecer) na intimidade
total. Não me censure.



Andrée, não me censure. De quando em quando me acontece vomitar
um coelhinho. Não é razão para não viver em qualquer casa, não é razão
para que a gente tenha de se envergonhar e estar isolado e andar se calando.
Quando sinto que vou vomitar um coelhinho, ponho dois dedos na boca
como uma pinça aberta, e espero sentir na garganta a penugem morna que
sobe como uma efervescência de sal de frutas. Tudo é rápido e higiênico,
transcorre em um brevíssimo instante. Tiro os dedos da boca, e neles trago
preso pelas orelhas um coelhinho branco. O coelhinho parece contente, é
um coelhinho normal e perfeito, só que muito pequeno, pequeno como um
coelhinho de chocolate, mas branco e inteiramente um coelhinho. Ponho-o
na palma da mão, levanto sua penugem com uma carícia dos dedos, o
coelhinho parece satisfeito de haver nascido e bole e esfrega o focinho na
minha pele, mexendo-o com essa trituração silenciosa e cosquenta do
focinho de um coelhinho contra a pele de uma mão. Procura comer, e então
eu (falo de quando isto ocorria em minha casa de campo) o levo comigo à
varanda e o ponho no grande vaso onde cresce o trevo que plantei com esse
fim. O coelhinho levanta suas orelhas, envolve o trevo novo com um veloz
molinete do focinho, e eu sei que posso deixá-lo e ir embora, continuar por
algum tempo uma vida não diferente da de tantos que compram seus
coelhos nas granjas.
Entre o primeiro e o segundo andar. Andrée, como um aviso do que
seria minha vida em sua casa, soube que ia vomitar um coelhinho. Em
seguida tive medo (ou era surpresa? Não, medo da mesma surpresa, talvez),
porque antes de deixar minha casa, só dois dias antes, tinha vomitado um
coelhinho e estava livre por um mês, por cinco semanas, talvez seis com um
pouco de sorte. Veja você, eu tinha resolvido inteiramente o problema dos
coelhinhos. Plantava trevo na varanda de minha outra casa, vomitava um
coelhinho, punha-o no trevo e, ao fim de um mês, quando suspeitava que de
um momento para outro... então dava o coelho já crescido à sra. de Molina,
que pensava ser um hobby meu e se calava. Já em outro vaso vinha
crescendo um trevo novo e apropriado, eu esperava sem preocupação a
manhã em que a cosquinha de uma penugem subindo fechava-me a
garganta, e o novo coelhinho repetia desde aquela hora a vida e os costumes
do anterior. Os costumes. Andrée, são formas concretas do ritmo, são a cota
do ritmo que nos ajuda a viver. Não era tão terrível vomitar coelhinhos uma
vez que isso havia entrado no ciclo invariável, no método. Você quererá
saber por que todo esse trabalho, por que todo esse trevo e a sra. de Molina.
Teria sido preferível matar em seguida o coelhinho e... Ah, você teria de
vomitar tão somente um, pegá-lo com dois dedos e colocá-lo na mão aberta,
ainda aderido a você pelo ato mesmo, pela aura inefável de sua proximidade
apenas rompida, Um mês distancia tanto; um mês é tanto, pelos compridos,
saltos, olhos selvagens, diferença absoluta. Andrée, um mês é um coelho,
faz de verdade um coelho; mas o minuto inicial, quando a mecha morna e
bulidora encobre uma presença imutável... Como um poema nos primeiros
minutos, o fruto de uma noite de Iduméia: tão da gente que a gente
mesmo... depois tão não a gente, tão isolado e distante em seu raso mundo
branco tamanho mapa.


Decidi, contudo, matar o coelhinho mal nascesse. Eu viveria quatro
meses em sua casa: quatro — talvez, com sorte, três — colheradas de álcool
no focinho, (Você sabe que a misericórdia permite matar instantaneamente
um coelhinho dando-lhe de beber uma colherada de álcool? Sua carne então
sabe melhor, dizem, embora eu... Três ou quatro colheradas de álcool, logo
o banheiro ou um pacote somando-se ao lixo,).
Ao passar o terceiro andar o coelhinho se mexia em minha mão aberta.
Sara esperava em cima, para ajudar-me a entrar com as malas... Como
explicar-lhe que um capricho, uma lojinha de animais? Envolvi o coelhinho
em meu lenço, coloquei-o no bolsinho do sobretudo, deixando o sobretudo
solto para não espremê-lo. Mal se mexia. Sua miúda consciência devia estar
revelando fatos importantes: que a vida é um movimento para cima com um
click final, e que é também um céu baixo, branco, envolvente e cheirando a
lavanda, no fundo de um poço morno.

Sara não viu nada, fascinava-a muito o duro problema de ajustar seu
sentido de ordem a minha mala-roupeiro, meus papéis e minha displicência
diante de suas demoradas explicações, onde abunda a expressão "por
exemplo". Tão logo pude, me fechei no banheiro; matá-lo agora, Uma fina
zona de calor rodeava o lenço, o coelhinho era branquíssimo e acho que
mais lindo do que os outros. Não me olhava, somente bulia e estava
contente, o que era o mais horrível modo de me olhar. Encerrei-o no
pequeno armário vazio e me voltei para desfazer as malas, desorientado
mas não infeliz, não culpado, não ensaboando as mãos para tirar delas uma
última convulsão.


Compreendi que não podia matá-lo. Mas nessa mesma noite vomitei
um coelhinho negro. E dois dias depois um branco. E na quarta noite um
coelhinho cinza.
Você deve gostar do belo armário do seu quarto, com a grande porta que se
abre generosa, as prateleiras vazias à espera da minha roupa. Agora guardo
os ali. Ali dentro. Verdade que parece impossível; nem Sara acreditaria.
Porque Sara não desconfia de nada, e não desconfia de nada por causa da
minha horrível tarefa, uma tarefa que consome meus dias e minhas noites
num só golpe de gatilho e vai me queimando por dentro e endurecendo
como aquela estrela-do-mar que você pôs sobre a banheira e que a cada
banho parece encher o corpo da gente de sal e açoites de sol e grandes
rumores de profundidade.
De dia dormem. São dez. De dia dormem. Com a porta fechada, o
armário é uma noite diurna somente para eles, lá dormem sua noite com
sossegada obediência. Levo comigo as chaves do quarto ao sair para o
trabalho. Sara deve pensar que ponho em dúvida sua honradez e olha-me
desconfiada, noto todas as manhãs que está para me dizer algo, mas por fim
se cala, e eu fico tão contente... (Quando arruma o quarto, das nove às dez,
faço ruído na sala, ponho um disco de Benny Carter que toma todo o
ambiente, e como Sara é também amiga de saetas e pasodobles, o armário
parece silencioso e talvez esteja, porque para os coelhinhos agora é noite e
hora de descanso.)

Seu dia principia nessa hora que vem depois da janta, quando Sara leva
a bandeja com um miúdo tilintar de pinças de açúcar, deseja-me boa-noite
— sim, deseja. Andrée, o mais triste é que me deseja boa-noite — e fechase
em seu quarto e imediatamente estou só, só com o armário condenado, só
com meu dever e minha tristeza.

Deixo-os sair, lançarem-se ágeis pela sala, cheirando vivamente o trevo
que meus bolsos ocultavam e agora fazem no tapete efêmeras rendas que
eles alteram, removem, consomem num instante. Comem bem, calados e
corretos, até aquele instante nada tenho a dizer, somente os olho do sofá,
com um livro inútil na mão — eu que queria ler todos os seus Giraudoux.
Andrée, e a história argentina de Lopez que você tem na prateleira mais
baixa —; e comem o trevo.

São dez. Quase todos brancos. Levantam a morna cabeça para as
lâmpadas da sala, os três sóis imóveis do seu dia, eles que amam a luz
porque sua noite não tem lua nem estrelas nem lampiões. Olham seu triplo
sol e estão contentes. Por isso, pulam pelo tapete, pelas cadeiras, dez suaves
manchas movimentam-se como uma constelação móvel, de um lado para
outro, embora eu quisesse vê-los quietos, vê-los a meus pés e quietos — um
pouco o sonho de todo deus. Andrée, o sonho jamais cumprido dos deuses
—, não assim, insinuando-se atrás do retrato de Miguel de Unamuno, em
torno do grande jarro verde-claro, pela negra cavidade da escrivaninha,
sempre menos de dez, sempre seis ou oito, e eu me perguntando onde
andarão os dois que faltam, e se Sara se levantasse por qualquer coisa, e a
presidência de Rivadavia que eu queria ler na história de Lopez.
Não sei como resisto. Andrée. Você recorda que vim descansar em sua
casa. Não é culpa minha se de quando em quando vomito um coelhinho, se
esta mudança me alterou também por dentro — não é nominalismo, não é
magia, apenas que as coisas não podem mudar assim de pronto, às vezes as
coisas mudam brutalmente e quando você esperava a bofetada direita...
Assim. Andrée, ou de outro modo, mas sempre assim.
Escrevo-lhe de noite. São três da tarde, mas escrevo-lhe na noite deles.
De dia dormem. Que alívio este escritório coberto de gritos, ordens,
máquinas Royal, vice-presidentes e mimeógrafos! Que alívio, que paz, que
horror. Andrée! Agora me chamam ao telefone, são os amigos que se
inquietam com minhas noites recolhidas, é Luis que me convida a caminhar
ou Jorge que reservou entrada para um concerto. Quase não me atrevo a
dizer-lhes que não, invento prolongadas e ineficazes histórias de má saúde,
de traduções atrasadas, de evasão. E quando volto e subo de elevador —
aquela passagem, entre o primeiro e o segundo andar — renovo noite a
noite irremediavelmente a vã esperança de que não seja verdade.
Faço o que posso para que não destrocem suas coisas. Roeram um
pouco os livros da prateleira mais baixa, você os encontrará escondidos
para que Sara não note. Você gostava muito de seu lampião com o ventre de
porcelana cheio de mariposas e cavaleiros antigos? O trincado mal se
percebe, trabalhei toda a noite com uma cola especial que me venderam em
uma casa inglesa — você sabe que as casas inglesas têm as melhores colas
— e agora fico ao lado dele para que nenhum o alcance outra vez com as
patas (é quase belo ver como gostam de se pôr em pé, lembrança do
humano distante, talvez imitação de seu deus deambulando e os olhando
carrancudo; além disso você terá percebido — em sua infância, talvez —
que se pode deixar um coelhinho em penitência contra a parede, de pé, as
patinhas apoiadas e muito quieto horas e horas).

Às cinco da manhã (dormi um pouco, estirado no sofá verde e
despertando a cada corrida aveludada, a cada tilintar) coloco-os no armário
e faço a limpeza. Por isso Sara encontra tudo em ordem, embora às vezes eu
tenha notado nela algum assombro contido, um ficar olhando um objeto,
uma leve descoloração do tapete, e de novo o desejo de perguntar-me algo,
mas eu assobiando as variações sinfônicas de Franck, de maneira que nada.
Para que contar-lhe. Andrée, as minúcias desventuradas desse amanhecer
surdo e vegetal, em que caminho entredormido levantando cabos de trevo,
folhas soltas, pelos brancos, aos encontrões nos móveis, louco de sono, e
meu Gide que se atrasa. Troyat que não traduzi, e minhas respostas a uma
senhora distante que já estará se perguntando se... para que continuar tudo
isto, para que continuar esta carta que escrevo entre telefones e entrevistas.
Andrée, querida Andrée, meu consolo é que são dez e não virão mais.
Faz 15 dias segurei na palma da mão um último coelhinho, depois nada,
somente os dez comigo, sua diurna noite e crescendo, agora feios e
nascendo-lhes o pelo comprido, agora adolescentes e cheios de
necessidades e caprichos, saltando sobre o busto de Antínoo (é Antínoo,
verdade, aquele rapaz que olha cegamente?) ou se perdendo no living onde
seus movimentos criam ruídos ressonantes, tanto que dali devo tirá-los, com
medo de que Sara os ouça e apareça horripilada, talvez em camisola —
porque Sara deve ser assim, de camisola —, e então... Somente dez, pense
você nessa pequena alegria que tenho, afinal de contas, na crescente calma
com que dou volta aos duros céus do primeiro e do segundo andar.
Interrompi esta carta porque devia participar de um trabalho de comissões.
Continuo-a aqui em sua casa. Andrée, sob um mudo e grisalho amanhecer.
É de fato o dia seguinte. Andrée? Um pedaço em branco da página será para
você o intervalo, apenas a ponte que une meu escrito de ontem ao meu
escrito de hoje. Dizer-lhe que nesse intervalo tudo terminou, onde você vê a
ponte aberta ouço eu quebrar-se a cintura furiosa da água, para mim este
lado do papel, este lado da minha carta não continua a calma com que eu
vinha escrevendo, quando a deixei para participar de um trabalho de
comissões. Em sua cúbica noite sem tristeza dormem 11 coelhinhos; talvez
agora mesmo, mas não, não agora — no elevador, logo, ou ao entrar; já não
importa onde, se o quando é agora, se pode ser em qualquer agora dos que
me restam.

Agora chega, escrevi isto porque me interessa provar-lhe que não fui tão
culpado na destruição irrecuperável de sua casa. Deixarei esta carta
esperando-a, seria sórdido que o correio a entregasse em alguma clara
manhã de Paris, À noite passada repus os livros da segunda estante; já os
alcançavam, pondo-se de pé ou saltando, roeram as lombadas para afiar os
dentes — não por fome, têm todo o trevo que lhes compro e armazeno nas
gavetas da escrivaninha. Rasgaram as cortinas, os forros das cadeiras, a
moldura do autorretrato de Augusto Torres, encheram de pelos o tapete e
também gritaram, estiveram dando voltas sob o lampião, em círculo e como
me adorando, e logo gritavam, gritavam como eu não acredito que gritem
os coelhos.

Quis em vão tirar os pelos que estragam o tapete, arranjar a moldura da
tela roída, fechá-los de novo no armário. O dia chega, talvez Sara se levante
agora. É quase estranho que Sara não me importe. E quase estranho que não
me importe vê-los correr em busca de brinquedos. Não tive tanta culpa,
você verá quando chegar que muitos dos destroços estão bem reparados
com a cola que comprei em uma casa inglesa, eu fiz o que pude para evitarlhe
um desgosto... Quanto a mim, do dez ao 11 há como um vazio
insuperável. Você vê: dez estava bem, com um armário, trevo e esperança,
quantas coisas se podem construir. Mas não com 11, porque dizer 11 é
certamente dizer 12. Andrée, 12 que será 13. Então está o amanhecer e uma
fria solidão na qual cabem a alegria, as recordações, você e talvez tantos
outros. Está esta sacada sobre Suipacha cheia de aurora, os primeiros sons
da cidade. Não acho que seja difícil juntar 11 coelhinhos salpicados sobre
os paralelepípedos, talvez nem os notem, atarefados com o outro corpo que
convém levar logo, antes que passem os primeiros colegiais.

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